Descobri a fórmula da minha crônica

Buscando referências acabei chegando à um vídeo da leitura de uma chamada “A árvore”, de Rubem Braga. O leitor não tinha dotes estéticos e nem de oratória, o que sugere ter contribuído bastante com a realização de algo além do vídeo. Do conteúdo, que era o que mais interessava, nada interessava. Parecia material pra exercício de interpretação de texto na terceira série. Era o texto mais simplório do planeta mas talvez os pais e professores vissem nesse tipo de material a oportunidade de trabalhar mais de um tema. Ecologia e português juntos. Se tornariam assim leitores mais críticos enquanto concluiriam juntos que cortas as arvores é errado porque deixa a natureza triste.

Toda vez que me deparo com uma coisa muito ruim toda arrumadinha como se fosse muito boa a minha voz mental auto-sabotadora toma um golpe e recupero 10% de autoconfiança. Como não assisto televisão isso não é tão frequente então dessa vez aproveitei pra vir deixar registrado que a fórmula é simples e eu meio que sempre soube: O que importa é ser pequeno o suficiente pras pessoas sentirem vontade de ler e grande o suficiente pra desistirem antes terminar. Quanto ao conteúdo, escreva qualquer merda. Ter que refletir, produzir, revisar, publicar,… Deixa o julgamento pra terceira série.

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Ele prefere ficar jogando do que brincar com a gente.

Crianças podem ser extremamente más. Falo isso pois mesmo que eu tenha deixado de ser uma elas não param de aparecer por toda parte. Não me incomodam em nada. Até porque não sou responsável legal por nenhuma delas e amo conversar sobre desenho animado e videogame. Elas se mostram insuportáveis quando estão em grupo. Apesar de conversar como uma delas eu tenho pelo menos o dobro do tamanho e uma barba, o que me faz parecer tão adulto quanto seus pais. Quando a criançada anda em bando eles mostram seu lado mais verdadeiro, que por muitas vezes se mostra cruel. Não acho que crianças sejam inatamente boas ou más, isso são meus julgamentos. Análogo ao desenho, adultos são pinturas em que a tinta já ocupou praticamente toda a tela, em alguns casos já existem camadas sobrepostas, mas nunca completos. As crianças são esboços do que um dia poderão ser figuras. Gostamos de tentar observar essas linhas pra entender que imagem essa poderá se tornar, muitas vezes sem reconhecer que até mesmo já sejam uma.

Na minha infância eu e os vizinhos de idades próximas gostávamos de nos reunirmos na frente da minha casa pra brincar de esconde-esconde. Ocasionalmente variávamos de atividades como brincar de boneco, jogos de tabuleiro, bater campainhas e sair correndo, …, nada muito diferente do que imagino da maioria das crianças do interior brasileiro nos anos 2000. Vivi uma boa parte da minha vida na rotina de sair da escola e encontrar esse pessoal. Os pais que sentavam na frente de casa para nos cuidar variavam a vigília e até mesmo se sentavam pra tomar chimarrão e conversar. Era ótimo ter adultos perto pra termos pra quem recorrer quando alguém se machucava ou tentava espiar enquanto contava mas em muitos momentos de crueldade eu lembro de estar presente e não ter uma saia para me agarrar.

Nunca me bateram, pois às vezes que teve brigas físicas no grupo não foi comigo mas gerava tanta confusão que tomos saímos prejudicados. A crueldade que me dói à ponto de voltar à escrever um texto no blog é muito mais sutil. Zoávamos. Testávamos. Replicávamos. Nenhuma das três palavras resume sozinha o que acontecia ali.
Zoávamos pois todo insulto tinha um ar de deboche e partia da ideia de que era apenas uma brincadeira.
Testávamos o que provocava adesão ou não do grupo na espera de uma validação e reconhecimento de superioridade sob o zoado.
Repetíamos muito! Exaustivamente. Alguns apelidos eram repetidos durante horas, dias, meses…
A maioria dos apelidinhos surgiam por causa de uma situação específica, como por exemplo se derramar ketchup e passar o dia inteiro sendo provocado como “melecado” porém outros apelidos maldosos eram mais pertinentes e me marcaram como “voz de taquara raxada” que um dia foi até repetido por uma professora quando me mandou calar a boca e as variações tradicionais da gordofobia. Curiosamente não tenho lembranças claras de ser provocado por ser afeminado. Alguns trejeitos eram podados e colegas de classe podiam até conversar pelas costas mas não lembro de vezes em que sofri esse tipo de opressão por amigos, recentemente descobri que talvez tenha sido pois muitos também tinham o ‘rabo preso’.

Ano passado morei em um condomínio e lá as crianças me lembraram o quão crítico pode ser. Eu morava no térreo em frente à pracinha. Eu passava o dia no computador ouvindo qualquer tipo de barbaridade. Geralmente tinha um cunho misógino e machista com pitadas de prepotência por diferenças de idade invisíveis à olho nú. Aquilo poderia me incomodar apenas pelo barulho que era impossível de ignorar mas o conteúdo me deixava irritado pois me lembrava de como eu me sentia mal nessas situações e tudo que eu queria era um redentor. Alguém que parasse o tempo toda vez que alguém me ofendia e sussurrasse no meu ouvido uma resposta que virasse o jogo entre ofensor e ofendido. Sim, eu precisava de algo como um mago do tempo pois se um adulto viesse à minha defesa seria um tiro no pé já que eu teria que assumir minha derrota por buscar ajuda e certamente seria ainda mais penalizado por demonstrar que não soube suportar a zuera. Pois bem, nunca me meti e sequer conversei com os pais deles sobre isso. Não porque eu estaria me metendo na vida de gente que eu não conheço, mas justamente por ter conhecido e não ter desenvolvido intimidade pude perceber que uma conversa sobre esse tipo de situação me traria desgaste emocional e ainda ódio da criança dedurada e dos pais perturbados. Era uma luta perdida em meio à tantas outras como estágio, faculdade, depressão, namoro, etc.
Aqui na favela do Vidigal eu tive menos contato com a gurizada dessa idade e na maioria delas o que me chamou atenção foram outras questões. Gostaria de escrever mais sobre o desconforto de ver elas brincando de tiro independente de termos vivido um tiroteio na semana passada ou ontem, mas isso não cabe aqui e agora.

Minha mãe se formou em história e quando virou o milênio comprou um computador e colocou no quarto dela, provavelmente inspirada não só pela ferramenta de trabalho mas também pelo espírito de futuro tecnológico que a publicidade cultivava na época. Não sei quantas horas passei desenhando no paint, mudando cada ícone e mexendo em pastas que não paravam de aparecer à ponto de ter que chamar várias vezes a assistência técnica. Apesar dos xingamentos da minha mãe por “estragar o computador com esses joguinhos” ela mal sabia que estava me pagando um curso de informática toda vez que chamava um técnico e eu lhe enxia de perguntas. Hoje sou um usuário assíduo desta máquina e tenho conhecimentos levemente acima da média. Sou capaz de formatar meu próprio computador, detectar e resolver problemas com vírus sem ter contratar um serviço, configurar roteadores,… não sou um hacker mas definitivamente estou inserido dentro dessa linguagem.

“Ele prefere ficar jogando do que brincar com a gente”. Essa frase foi dita pra mim quando eu estava parado na porta da frente encarando meu grupo de amigos que me chamava pra brincar mais uma vez de esconde-esconde. Eu poderia ter desistido de ir pro computador e ter ficado junto com eles já que queriam minha companhia. Eu não lembro o que eu disse. Não sei se me desculpei ou só entrei e fechei a porta. Lembro que não chorei e lembro que não fui ficar com eles. Eu poderia ter mentido que minha mãe não deixou brincar naquele dia mas eles iriam pedir diretamente pra ela e eu seria desmentido e ainda por cima teria que me justificar pra minha mãe. Eu poderia ter convidado-os pra entrar e ficar comigo na volta do computador mas minha mãe não gostava de gurizada no quarto dela. Tenho certeza que nada disso foi pensado conscientemente no momento. O que ficou marcado foi o calor que apareceu dentro de mim. O nervosismo de ouvir algo sobre mim que eu não tinha percebido e que agora dito eu não podia negar. Pensando agora, acho até que devo ter negado assim como qualquer pessoa culpada nega o erro na primeira acusação.

Não é a primeira vez que paro pra pensar sobre minha relação com este aparelho. Meus atuais amigos sabem quantas vezes eu já desinstalei meus jogos online pra tentar me afastar um pouco da vida digital, o que acaba desembocando em ainda mais tempo assistindo Youtube e Netflix. Estou esvaziado de autoria. Novamente sem nenhum direcionamento pra minha criatividade, sem nenhum grupo para me encaixar, sem nenhuma ambição do que quero me tornar. Nem tenho jogado coisas novas. Sigo nas mesmices repetitivas das quais ainda por cima sou um péssimo jogador. Não consigo estabelecer uma rotina de uso saudável deste aparelho. Ele afeta não só meu sono mas também meus cuidados comigo mesmo e com as pessoas que importam pra mim.

Recentemente tive um emprego muito legal. Eu era suporte em uma empresa que distribui músicas para as lojas digitais como Deezer, iTunes, Spotify, etc. Era a mescla perfeita entre arte, entretenimento e mundo digital. Fui demitido no fim do período de experiência por não ceder ao pedido de censuras autoritárias e intimidações de quem tinha meu contrato nas mãos. Durante o período em que trabalhei eu não abri um jogo sequer. Não porque eu não queria mas porque eu não tinha muito tempo e do tempo que eu tinha eu não queria. Me conectei aos colegas de trabalho, novos amores, novos lugares…

Duas semanas depois da demissão e estou de volta em casa fumando e jogando compulsivamente. Mesmo virando noites online não me sinto mais feliz. Até poderia entender como tristeza pois afinal de contas é normal perder um emprego e ficar chateado, porém não é como se fosse um comportamento novo. Já fazem duas semanas que fui demitido e ainda não tive a disposição necessária pra ir até o centro da cidade pra resolver a papelada pendente da demissão. Não compus uma música, não escrevi um texto, não desenhei um quadro, não faxinei a casa, não fiz refeições saudáveis, não fiz exercícios físicos, não enviei currículos. Saí pra encontrar alguns amigos e conversar um pouco mas quando se trata de falar da minha vida vira um papo parecido com este texto: longo e melancólico. Estou farto de contar esses dramas mundanos e seguir ouvindo conselhos motivacionais dizendo que eu posso e que eu sou capaz de sair dessa pois eu sou incrível e tenho que acreditar em mim. Sei que sou. Sou responsável pelas minhas decisões de quando abrir um jogo virtual e quando abrir a tampa da caneta pra desenhar. Tenho tentado criar artifícios pra me motivar a sair do computador mas não tem funcionado já que este texto esta sendo escrito na madrugada de uma das noites de insônia.

sem conclusão yet.

Pedro quer escrever ficção

Apesar de não ter tido muitas experiências escrevendo ele acha que vai ser por aí que conquistará uma narrativa própria. Das que estão disponíveis nas estantes virtuais nenhuma é sua. Todas são histórias contadas de outros para outros. Pedro até gosta de algumas mas ele entende que o crédito e poder dado a um autor vai muito além do que de qualquer diretor, ilustrador, ator,… Pedro precisa do seu universo próprio.

Hoje Pedro não tem nenhum compromisso na rua. Em instantes ele vai começar o nascimento de sua obra, mas antes ele precisa limpar a casa, fazer comida, comer, lavar a louça, lavar a roupa, ir no supermercado, fumar um cigarro, decidir parar de fumar cigarro, servir um copo d’água, virar o copo d’água, secar o chão, servir outro copo d’água, sentar no computador, atualizar o antivírus, next, next, finish e pronto. Pedro está face a face com mais uma pagina em branco. Esta parece muito com a página em branco de outro dia com a diferença que não é.

Pedro mastiga a tampa de caneta enquanto fica olhando pra parede e imaginando todas as possibilidades de dimensões que sua história pode ter. Em que tipos de personagens poderiam se juntar e provocar momentos inusitados. Quais seriam as cenas épicas de comoção ao leitor e como construiria-se o arco dramático pra ter o efeito desejado? Pedro acredita ser criativo mas sabe que mesmo o sendo, até então tudo que ele tem é a página em branco com o cursor piscando.

Pedro virou a cadeira de costas pra tela e olhou para alguns dias atrás quando visitava família e amigos. Tantas histórias que se cruzaram, que se desenrolaram, que surgiram. Pedro sabe que na sua própria vida existe um oceano de questões que poderiam ser revisitadas. Acontece que tinha uma história da qual Pedro estava farto e essa era a sua própria. Tantas vezes convidado a repetir para amigos, repetir para sí. Vivendo quase que apenas a sua vida. Pedro não quer escrever sobre seus aprendizados, suas dificuldades, suas conquistas, seus problemas familiares, seus próprios sintomas psicológicos que ele tanto diagnostica. Este universo é muito tosco, igual a tantos outros. Pedro quer escrever uma ficção mas não consegue.

A alegria dos outros

Tinha acabado o último cigarro e da tela já não tinha mais imagem pra ser vista.
A festa no vizinho era grande.
Sentei na poltrona da varanda, um estofado de dois lugares que encontrei ao lado do lixo.
Tocavam eletrobrega, funk melody.
Peguei a biografia de Clarice que tinha encontrado numa doação de livros.
O cheiro de churrasco invadia minha casa.
Primeiro Carnaval de Clarice. Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança.
Um estardalhar de vidro e gritos. Quebraram uma garrafa de cerveja.
A mãe de uma amiga resolveu fantasiar a filha de “rosa”. Como sobrou papel crepom, a mãe da meina fez também uma igual para Clarice.
O que pensa que eu sou? Se não sou o que pensou me libera, não insista. Vá viver um outro amor.
Quando estava vestida de papel crepom todo armado, ainda sem batom e ruge, minha mãe de súbito piorou muito de saúde. Mandaram-me comprar um remédio depressa. Fui correndo vestida de rosa entre serpentinas e gritos de carnaval. A alegria me espantava.
Sempre fui guerreira mas foi de primeira. Me vi indefesa. Coração perdeu a luta assim.
E como nas histórias que eu havia lido, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina.
A festa estava muito animada.

Hortelã

Deixei ela morrer na janela negligenciando atenção propositalmente. Mas foda-se. Começar assim talvez reforce meu estereótipo de pessoa fria afinal sou capricorniano. Não são títulos que eu escolhi pra mim e nem concordo com eles, tanto de ser uma pessoa fria quanto de ser capricorniano. Ao contrário, me considero sensível e vulnerável. Por isso mesmo deixei ela apodrecer.

Compramos ela já grandinha no hortifrúti e combinamos que iríamos cuidar os dois apesar de que a insistência pra pega-la tenha sido minha. Ficou na janela do nosso quarto pegando sol junto com as outras que já tínhamos plantado. Fazia parte dos nossos pequenos projetos de construção de um comum. Na verdade eram meus projetos pra um nosso comum. Sabe como é capricorniano, né? Projetista, calculista…

Somos todos seres vivos e a finitude nos acompanha , pra ser menos desesperador vamos dando significado às pedras, às plantas, às pessoas,… sendo que tudo tem seu fim, inclusive os significados.

Dar significado para a planta não é humanizar a planta, é humanizar a mim. A planta ainda é planta e por isso a deixei morrer. Todas as coisas estavam em crise de significado. Eu iria me deixar morrer? Não. Deixei a planta. Ver todos os dias ela perdendo as forças, perdendo as folhas,… só não foi perdendo o significado. Sua morte era a companhia do fim de um ciclo.

A morte da Hortelã foi dolorida .Convivi com ela porque sabia que um dia morreria por completo. Meses depois eu estaria comprando apenas alguns ramos no mercado. O suficiente pra fazer chá durante uma ou duas semanas até ter que voltar lá e comprar outro ramo. Tenho pretensão de pegar um pé novo pra cuidar. Espero o dia que eu tiver um vaso pronto para recebê-la. No momento estou sem pressa e sem hortelã mas estou com um pé de salsinha que já ta ficando enorme.

Folha em Branco

Que… sensação é essa? Estou morto, ou sonhando,… poderia ser confortável se não fosse apavorante. Se não estiver morto tenho certeza que é um pesadelo! Não enxergo meu corpo, não enxergo nada, a não ser uma imensidão branca. Difícil identificar se estou voando, caindo, parado, levitando… Tento lembrar a quanto tempo eu estaria aqui mas sequer lembro de onde estava antes, e nem o que faria depois. Se eu voltar, vou voltar pra onde mesmo?

Do silêncio absoluto ouço um ruído. Meus pensamentos soltos se tornam atenção plena. Não identifico nada que aquele som seria, pudera conseguir identificar o que eu posso ser,… É uma enorme ampulheta! Agora tenho certeza que é um sonho! Porque se estivesse morto eu duvido que Deus iria receber alguém com um objeto egípcio, afinal Deus não é egípcio. Ou será que é?… Sei lá se é egípcio, mas essa areia é amarelo-alaranjada e fica formando tipo uma pirâmide onde ela cai, na parte de baixo, então associei com Egito,… pera. Parte debaixo?

Um blackout se instaura no instante que sinto meu corpo gira 180 graus finalizando o movimento com um impacto das minhas costas contra o chão. Assim que abro meus olhos estou novamente num infinito branco mas desta vez sinto meu peso, como se o chão estivesse me contando que eu existo. Corro o olhar para os dois lados para ver se encontrava a ampulheta e nada. Tomo coragem e apoiando os braços no chão ergo meu corpo e finalmente posso ver minhas pernas brancas, minha barriga flácida, meus braços fortes e, à minha frente, a ampulheta egípcia. Com ferocidade eu me impulsiono pra frente e de tanta afobação vou de quatro mesmo até a ampulheta com a esperança de ver meu rosto refletido no vidro.  

Cá estou eu, cabelo castanho comprido, olhos escuros, nariz levemente torto para a esquerda, sobrancelhas grossas e lábios finos que me parecem bem ásperos enquanto passo meu dedo indicador sob eles. Abro a boca pra ver meus dentes e tomo um susto quando percebo que na parte direita de cima me faltam uns três. Na hora em que vi acabei soltando um som qualquer com a boca que me deu um segundo susto me fazendo tapar-la com as mãos. Aquela era minha voz!

Ainda com as mãos na boca apoiei minhas costas na estrutura de madeira que sustentava o vidro. Ainda que trêmulo, vou relaxando os braços e coloco a mão direita sob o coração e este parece que vai explodir. Firmo a postura e respiro fundo para criar coragem de falar e conhecer minha voz. Com o pulmão cheio de ar, grito: – OLÁÁÁÁÁkkk!

Antes de terminar o ar acabei dando uma risada, não sei direito o porquê mas foi engraçado me ouvir. Era uma voz mais pra grave do que pra fina. Mais pra rouca do que pra suave,… se bem que pode ter sido impressão já que falhou um pouco, deve ser o nervosismo. Estranha mesmo foi minha risada que lembrou galinhas cacarejando. … Pois bem. O meu olá não retumbou, não ecoou. Parece que todo esse branco é infinito mesmo. Só me resta eu, a ampulheta e minhas dúvidas.

Aquele pequeno lampejo de alegria pela descoberta de algo novo logo em seguida volta a ser ansiedade. Fico em pé e resolvo me sentar na ampulheta, pelo menos pra dar uma variada do chão. Fico olhando para os meus pés sacudindo. Eles são lisos e não parecem nem um pouco machucados. Fico batendo um contra o outro, ouvindo o pequeno sonzinho que eles faziam… Afinal, quem sou eu?

Ouço uma “olá” do nada que me assusta tanto que acabo caindo no chão. Atrás de mim tinha um homem de pijamas. Com muito mais medo do que tive ao ver minha própria imagem, fico agachado atrás da ampulheta espiando o homem por cima, como se tivesse mais seguro por ter aquele trambolho entre nós. Faço a pergunta mais óbvia que poderia fazer nessa situação: – Você é Deus?

  • Ai, Deus? Não gosto de pensar assim. Deus? Hm. É pouco criativo né? Acho que Deusa pelo menos. Eu posso ser Deusa. Parece um pouco menos óbvio pra mim.

Sem entender nada, estou ali imóvel encarando aquela criatura que parece ter ficado entertida com os próprios pensamentos. Estou começando a ficar mais apavorado. A cada nova descoberta só aumentam as perguntas e nada se responde. Não me resta escolha se não interrogar: – Se você não é Deus, então quem é?

  • Me diz você quem é primeiro. – Responde ele em tom irônico.
  • Eu?…- Tento buscar na memória a resposta e nada aparece. Ele está tentando inverter o jogo! Pergunto de volta: – O que você fez comigo?
  • O que eu fiz? Não muita coisa. Na verdade eu te criei, só.- Disse ele enquanto colocava as mãos no bolso e ficava se embalando com os pés. O suor escorre pelo meu rosto e ao mesmo tempo sinto meu corpo gelado. Sem pensar muito, volto a indagar: – Você é meu pai?
  • Pai? Credo. Não sou pai não. Não ainda pelo menos. Eu meio que te criei mesmo. Mas se você quer um Pai, então você tem um pai.
  • Filho!

Ouço uma outra voz. Esta é familiar e carinhosa. Me viro e vejo meu pai que veste o mesmo casaco e a boina de sempre. Com um braço aberto aberto pronto para um abraço e a outra mão apoiada na bengala que ele ganhou da vizinha da frente no aniversário do ano passado.

  • Pai! – Disse eu ficando de pé num salto e indo ao seu encontro. Apertei meu corpo contra o dele e afundei meu rosto em seu ombro e única coisa que faço é chorar incessantemente. Não sei porquê.
  • Calma Pietro. Você não pode ficar chorando assim toda vez que nos despedimos.
  • Não vai embora Pai! Eu imploro! – Disse eu e então caio de joelhos à sua frente enquanto agarro firme o seu casasco.

Depois de chorar compulsivamente por alguns segundos aquilo vai se transformando lentamente em suspiros profundos e acabo por soltar o casaco, limpar as lágrimas  e abrir os olhos. Deus, ou Deusa, está de moletom, parece roupa de ginástica, em cima de um tapetinho fazendo poses como se estivesse testando o próprio equilíbrio. Enquanto eu tentava entender o que ele pretendia com aquilo, me diz:

  • Nossa. Foi pesado heim? Bem dramático. Acho que essa parte o pessoal vai gostar. Agora tens até um nome! – disse ele enquanto sorria.

Que esnobe! Aquela expressão irônica mudou uma chave em mim. Não era mais tristeza e nem medo. Eu estava com ódio daquele idiota. Ele tem domínio da situação e está me torturando por diversão! Com os punhos fechados fui correndo até ele e com as duas mãos agarrei seu colarinho e lhe disse enquanto sacudia seu rosto frente ao meu: – O que está acontecendo aqui?

  • Nossa! Calma cara, eu não pensei que ia despertar teu lado violento.

De repente eu estava sacudindo apenas o moletom vazio e Deusa estava sentado na ampulheta atrás de mim, só com a parte debaixo do conjunto de ginástica. Jogo o moletom no chão e insisto na pergunta olhando em seus olhos: – O que está acontecendo?

  • Eu não queria explicar ainda pra te deixar livre. Queria poder te deixar o mais livre possível pra, sei lá, tu ir te descobrindo, sabe? – Após ele dizer isso, tira do bolso uma garrafa d’água e começa a beber. Perco as esperanças de sair desse pesadelo. Caio em posição fetal e começo a chorar. Ai de mim. Entre fungadas e soluços acabo verbalizando que não que não queria estar ali, que não queria existir. Tenho a impressão que ouço Deusa chamando meu nome com uma voz afetuosa. Olho e em seu rosto existe finalmente uma expressão de compaixão. Ele diz:
  • Calma Pietro. Eu sinto muito ter te causado toda essa dor, realmente não era essa minha intenção. É que eu precisava criar um conto qualquer e acabei te criando antes de ter uma ideia clara do que eu queria. Mas assim que terminarmos essas três páginas tenho certeza que nossa experiência vai ter melhorado um pouco minha habilidade de escrita e teu sofrimento vai ter um fim.

Um silêncio ensurdecedor me tomou. Não podia ser verdade! Com medo da resposta, pergunto: – Minha vida se resume a isso?

  • Se a gente for pensar em resumo,… É. Da pra dizer que o resumo da tua vida é esse, mas olha que legal o contexto que criamos. Um corpo, um pai, um nome, além de várias subjetividades. De onde será que tu tirou Egito? Nada a ver na real. Mas to bem satisfeito, tem personagem que é criado por aí e não tem nem metade do que tu tem… era pra tu estar orgulhoso ao invés de melancólico…

Quanto mais ele fala, menos eu consigo entender. Caio de joelhos e meus olhos estalados desviam da cara daquele Deusa farsante e encaram o vazio do lugar, de mim, dessa vida. Quanto tempo mais será que tenho? Olho pra ampulheta e parece que a areia está chegando ao fim. Ao invés de viver essa tortura eu poderia estar num amável conto de natal, as aventuras de um conto policial, os mundos fantásticos de um conto épico, até mesmo um conto erótico de quinta categoria seria melhor do que esta realidade medíocre, etérea… Nada faz mais sentido… Pai…, você foi real? É impossível conter as lágrimas que escorrem dos meus olhos sem esforço. Com um punho fechado limpo o rosto e fico em pé. – O que tu vais fazer? – Ouço aquele idiota perguntar quando vê que estou decidido a tomar uma ação impulsiva. Sem responder nada vou correndo em sua direção. Rapidamente ele vai recuando. Antes de alcançar a ampulheta dou um salto e aponto os dois pés para destruí-la com um só golpe. Um grande estouro de vidro toma conta do espaço e a areia se esparrama pelo chão branco. Ajoelhado em meio aos cacos eu levanto o rosto ao céu, abro os braços e estou finalmente pronto para o meu fim. Depois de alguns segundos se passarem começo a pensar se meu corpo está se decompondo ou não. Escuto o tal Deusa dizendo:

  • Caramba, não sei se foi uma decisão consciente de te tornar tão trágico assim. Eu tinha pensado dessa ampulheta simbolizar tua vida mas certamente terão vários colegas dando esse significado. Eu queria mais era ver interações novas com o objeto, pensar em saídas mais criativas…

Com a tranquilidade que o mais profundo desespero pode proporcionar, supliquei:

  • Por favor!

Então um redemoinho de areia começa a girar na volta do meu corpo me erguendo até o ar e revelando que o que pensei ser uma infinitude era apenas uma caixa branca no meio do deserto. Os Deuses egípcios ,em escalas colossais, estavam todos lá de mãos dadas fazendo um círculo em torno de mim. O tornado me transformava em areia amarela-alaranjada até que o tempo parou.

Audita a maldita que tudo melhora

Classe social no geral média baixa
Futuro é ilusão dentro de uma caixa
Audita a maldita que tudo melhora
Não fizeram antes mas farão agora

Lula, Dilma, Temer. Fachada da faixa
Geração da Xuxa e o namoro da Sasha
Pra ser cidadão tem que pagar a taxa
Acende o baseado que aí nós relaxa

Não quero subir pra pagar de erudita
Eu quero o que é meu. Papo que tu evita
Audita a maldita que tudo melhora
Não fizeram antes mas farão agora

Se o Brasil dissesse que tem cem reais
Vinte ele usava para os nossos pais
Quarenta pro povo, ordem e progresso
Nos outros quarenta que eu me interesso

Quase a metade de tudo que eu fiz
Some bem em frente do nosso nariz
Audita a maldita que tudo melhora
Não fizeram antes mas farão agora

Inflação só infla feito baiacú
Tento entender tudo mas eu sou um crú
O povo é Bentinho e o PT Capitú
Quem cresce aqui é só o banco feito pra você

Audita a maldita que tudo melhora
Não fizeram antes mas farão agora
Audita a maldita que tudo melhora
Não fizeram antes mas farão agora